sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O cimento fresco


O dia era comum como outro qualquer. Apenas mais um dia de rotina que, assim como vários outros, não tinha muita importância. Ainda era manhã e o sol estava a pino. Hoje mais do que nunca, honrava a alcunha que lhe era dado como grande bola de fogo. O mormaço pairava no ar entre o nada e as ondas de calor que emanavam visivelmente das ruas asfaltadas e das calçadas que as ladeavam.
Ao passar pelas ruas, o homem observava atentamente os rostos que por ele passavam, e as expressões que demonstravam não eram muito diferentes uma das outras. A maioria delas denunciava a seriedade com que levavam os seus dias. Já em outras faces, era comum vislumbrar expressões aturdidas, ou desamparadas, algumas pensativas, e eram poucos os que demonstravam satisfação, com um sorriso bonito enfeitando-lhes o rosto.
Foi quando ele estava andando em uma dessas ruas da cidade que deparou-se com uma situação irritante, dessas que surgem no dia-a-dia apenas para torná-lo um pouco diferente do dia anterior e não cair na monotonia.
Uma cratera havia tomado conta da calçada e o impedia de prosseguir pelo caminho. Provavelmente teria sido causada pelo efeito das chuvas tórridas que haviam acometido a cidade nos últimos dias. Já não se via nenhum vestígio no céu azulado, mas, a chuva que antes era indesejada, era esperada com anseio por muitos para combater o sol escaldante de hoje.
Um pedaço de concreto da calçada pendia no ar, podendo ceder a qualquer instante que um desavisado andasse por ele. Era a armadilha perfeita para deslocar o pé e apresentar um atestado médico na empresa.
Como era uma pessoa consciente e não estava insano a ponto de torcer o pé por um atestado, passou por um pequeno trecho da calçada que ficava colado ao muro e logo conseguiu chegar ao outro lado.
A travessia sobre a cratera havia sido uma experiência interessante. Não era todo o dia que encontrava um obstáculo daqueles. Fora como um pequeno treinamento para andar na beirada de montanhas rochosas e não cair no penhasco.
A uns poucos passos à frente, foi surpreendido com outro pedaço destruído da calçada. Dessa vez, o buraco parecia ter sido aberto por uma grande toupeira. A extensão da vala era realmente assombrosa. A cicatriz desenhada e aberta no chão chegava a alcançar a esquina da rua, estragando completamente a calçada por onde transitavam os pedestres.
Como estava prestes a se atrasar, apressou o passo e continuou a seguir o seu caminho por um dos lados da calçada que contornava a grande fenda lascada no chão. O que restou daquele dia fora preenchido com muito trabalho e cansaço.
Já à noite, na volta, novamente o homem passou pelos buracos com cautela e tomou o rumo que levava à sua casa. Morava sozinho, e por isso, não tinha com o que se preocupar. Uma vez que estivesse dentro dela era só relaxar, deitar e dormir.
No dia seguinte ele continuou com a sua rotina monótona, que por conta do destino ou por mero infortúnio, a vida havia lhe reservado desde sempre. E lá foi ele novamente a mais um dia árduo de trabalho.
Nesse dia, o sol também dava o ar de sua graça esbanjando calor e luminosidade, e ele, como de costume, reparava nos rostos das pessoas que iam e vinham desordenadamente. Curiosamente, nesse dia, a expressão que estava mais em alta era a do mau humor, do tipo: “me deixe quieto ou vai sobrar pra você”. Sendo assim, seguiu o seu caminho, acatando a ordem que sutilmente lhe era passada, e fez de tudo pra não trombar em ninguém que passava por ele.
Estava perto de dobrar a direita e seguir pela rua transversal quando lembrou-se da surpresa que o dia de ontem o reservara. Era na próxima virada a rua em que a cratera se instalara. Era naquela calçada que o seu dia deixaria de ser como os outros dias de mesmice. Ali era onde estava o novo. Mas isso não duraria muito tempo. Se a cratera continuasse a interferir em seu caminho tudo voltaria ao que era antes, tornaria-se rotina, e não haveria mais o novo. O novo se tornaria velho - Isso, se já não fosse velho! - pois uma vez que já havia descoberto e experimentado aquela situação, não mais seria novo.
O homem caminhou hesitante até a súbita virada que faria do seu dia apenas mais um entre os outros tantos dias qualquer. Foi ao dobrar à direita que finalmente encarou o que aquele dia havia a tanto maquinado para ele.
A enorme cratera, que antes tomava conta da calçada, agora estava coberta. Sim. Ela estava completamente tapada. Fora inteiramente preenchida de cimento para restaurar a calçada. Ao constatar diante de seus olhos essa imagem; o homem ficou desnorteado. Era claro que ele não sabia o que queria – se o velho ou o novo, mas o fato do buraco ter sido tapado significava que tudo voltaria a ser como antes, e isso era certo.
Não demorou muito para que seus pensamentos fossem rechaçados e voltasse a sua atenção a outros fatos que ocorriam ao seu redor. No chão, em volta do local onde haviam coberto o desnível com cimento, havia uma fita listrada amarela e preta, que deveria servir para sinalizar as pessoas que o cimento estaria fresco. Além disso, um outro elemento nesse local denunciava a tentativa de alertar os transeuntes que o cimento que tapava o buraco estava a secar. Era um pedaço de madeira grande e fina que se encontrava estrategicamente na posição vertical escorada no muro. O que mais o chamava a atenção, nem eram os elementos sinalizadores, mas sim as diversas pessoas que passavam por ele e que caminhavam livremente sobre o buraco recém-coberto de cimento fresco.
Aquilo, para o homem, foi como uma facada no coração. Demonstrava a falta de respeito que as pessoas tinham com as outras. Era a maior prova do egoísmo e individualismo da sociedade moderna. Ninguém pensava no outro. Apenas em si mesmos. Ao pisar no cimento ninguém pensou no trabalho duro de quem o tapou pelo bem comum. Pelo bem social. Ninguém pensou que quem o tapou havia lhe prestado um favor e que tudo o que pedia em troca era que não pisassem naquela região. Ninguém.
Como não queria ignorar os avisos sinalizadores e como não queria desrespeitar o trabalho daquele que havia preenchido o buraco, ele passou contornando a grande área de cimento fresco e continuou a seguir pela calçada. E enquanto seguia, percebeu que as outras pessoas ainda passavam despreocupadas pelo cimento. Foi nesse momento que ele notou.
Apesar do buraco ter sido tapado, supostamente a alguns pares de horas, não haviam pegadas no cimento, ou seja, o cimento estava seco! E isso explicaria o fato das pessoas andarem por ele despreocupadas.
Continuou a andar pela calçada, mas sua incredulidade o incomodava, como uma pedra no sapato ou um sapo na garganta. Precisava olhar para trás e conferir. Saber se realmente nenhuma das pessoas que passavam pelo cimento o faziam de má fé. E foi o que fez. Já a alguma distância da cratera, viu um senhor passar pelo cimento e reparou nos seus pés. Precisava saber se deixava marcas. Se deixava rastros. Se deixava as malditas pegadas no cimento. Mas não as viu.
Virou e continuou a seguir seu caminho, mas se recusava a acreditar no que vira. Se o cimento já estava seco para que serviam então aquelas sinalizações? Por que não as retiravam se já não eram necessárias? E foi pensando assim que ele virou novamente. Precisava ver pela última vez. Constatar se realmente estava errado. Mas dessa vez foi diferente.
Ao olhar para trás, pela última vez, o homem notou que o cimento não mais estava incólume como das outras vezes que o olhara. Dessa vez ele havia sido violado. Dessa vez, ele viu as malditas marcas daquelas pessoas torpes encravadas nitidamente no cimento. Era como se um monumento público estivesse sido pichado. O cimento manchado com as pegadas daquelas pessoas tornara-se uma arte de extremo mau gosto.
Uma cólera o abateu e a indignação tomou conta de seu corpo. E logo o homem começou a buscar pelo malfeitor. Seus olhos cheios de fúria percorriam as pegadas avidamente com o intuito de achar o culpado por tal barbárie contra o trabalho alheio e o bem público.
Foi então que o homem reparou que as pegadas deixadas no cimento não estavam localizadas onde antes havia uma cratera, mas sim na grande fenda que havia sido aberta logo mais a frente do buraco. Aquele cimento sim estava fresco.
E novamente o homem buscou por um responsável, só que dessa vez ele estava ainda mais determinado. Seus olhos acompanharam as pegadas no cimento, quem havia cometido tal ato desagradável ainda deveria estar andando por ali pois a extensão da fenda era muito grande e tomava quase toda a calçada. Tinha certeza que se seguisse as pegadas com os olhos encontraria quem procurava. Ele estava por ali.
E assim o homem o fez. Seus olhos fugazes esforçaram-se para localizar o vândalo, até que o encontrou e o homem finalmente descobriu o causador de toda aquela situação. Deus sabe o quanto ele se arrependeu depois de tanto persegui-lo com seu olhar de acusação. Naquele momento desejou que a fenda estivesse aberta para que pudesse se esconder de tamanha vergonha. O verdadeiro culpado, aquele que chamava de malfeitor, o vândalo, e o depredador a quem tinha tanto desprezo meus caros, era ele próprio.