quinta-feira, 12 de julho de 2012

Aposta alta





Tudo ia muito bem, e a aposta era alta, mas valia à pena. E foi o que ela fez. Arriscou-se penhorando todas as suas fichas no que tinha de melhor, na sua confiança, e no seu amor. Mas ela não percebeu. Oh, não. Não percebeu que, ao fazer isso, a mesa em que apostava estava desgastada pela vaidade, rachada pelo egoísmo, e infestada por todos aqueles males que uma vez foram libertos da chamada Caixa de Pandora, e, que as suas últimas fichas eram o que restava no fundo da caixa. Era a última gota. Era a salvação. Mas ela não sabia, e não conseguia perceber isso. Seu olhar transbordava a tormenta de uma euforia nunca antes vista, porque agora ela tinha razão, ela estava apostando certo e sabia que iria ganhar. E ela ganhou. Ganhou sua visão de volta com o bafo gélido e cético da realidade da mesa em que se encontrava sentada, agora de mãos vazias. De mãos vazias sim. Até o que todos sempre guardavam para o fim ela havia se livrado. Estava crente de que venceria, afinal era o Amor, ele podia vencer tudo, não podia? E ao sair da mesa, agora com o sabor amargo do desencanto, percebeu o seu erro. Não podia ter dado tudo de si, não podia. Que seria dela sem o resto do seu eu? Seu coração começara a se espremer e espremer, e diminuía cada vez mais. Que era aquilo? Tal dor, excruciante que poderia até já ter sentido antes, mas que agora a fazia desejar uma adaga fervilhante como magma em seu peito?  E a inquietude? Antes sequer conhecida, mas que agora criava morada em seu ser? Ao cair no chão, ela pensou por pouco tempo, mas o suficiente para saber que o resto de centelha que lhe estava sendo sugada, não valia a dor em seu peito. Até que deferiu a sentença. Arrancaria seu coração. Não iria mais sentir ou amar. Se o poço de sentimentos nobres e grandiosos que estava ali dentro era uma toxina, tinha que expurgá-los. E assim ela o fez, tirou seu coração e ao fazê-lo olhou pela última vez com o resto de saudosismo que ainda podia sentir ou lembrar.
Após o procedimento de autoflagelo, era visível sua melhora. Ela via tudo como tinha de ser visto. Era um alívio. Passou-se um tempo até voltar à velha mesa para jogar. Mas agora não era como antes, certo? Dessa vez, os outros jogadores percebiam sua presença e a desejava. Mas de que valia? Se o que tinha de mais importante fora jogado fora, e ela já tinha prometido a si mesma que não mais iria amar.

2 comentários:

  1. Eu arranquei meu coração e deixei morrer de taquicardia na realidade fria. E agora, o que fazer ? rs...

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  2. deixa congelar... fazer o que? hauhau

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